Ser Poliglota no Mesmo Idioma: Reflexões sobre o Papel da Educadora Bilíngue na Educação Infantil

Fotografia de uma educadora sentada em uma roda de crianças no chão, segurando o livro infantil 'Spot Goes to School' e uma cesta branca. Quatro crianças pequenas estão sentadas ao redor dela em almofadas coloridas, prestando atenção. O ambiente é claro e acolhedor.

Mylena Frasão

Quando pensamos em educação bilíngue, é comum associarmos a qualidade do ensino ao domínio de uma segunda língua. No entanto, na Educação Infantil, a fluência linguística é apenas uma parte de um trabalho muito mais complexo. Atuar em um contexto bilíngue exige uma competência que vai muito além do conhecimento do idioma. As educadoras não utilizam o inglês como um conteúdo isolado a ser ensinado, mas como uma ferramenta de comunicação, investigação, escuta e construção de relações. É por isso que gostamos de dizer que as educadoras bilíngues precisam ser “poliglotas no mesmo idioma”.

A expressão pode parecer contraditória à primeira vista, mas traduz um desafio cotidiano vivido por essas profissionais. Embora utilizem a mesma língua, elas precisam adaptar constantemente sua comunicação de acordo com a faixa etária, o desenvolvimento e as necessidades de cada grupo de crianças. Uma educadora que atua com bebês ou crianças bem pequenas não se comunica da mesma forma que aquela que acompanha crianças de cinco ou seis anos. O idioma permanece o mesmo, mas a escolha das palavras, o ritmo da fala, a complexidade das perguntas, as estratégias de mediação e até mesmo a linguagem corporal se transformam para que a comunicação seja verdadeiramente significativa.

Essa compreensão encontra respaldo nos estudos de Lev Vygotsky, que defendia que o desenvolvimento da criança acontece nas interações sociais e que a linguagem desempenha papel fundamental na construção do pensamento. Sob essa perspectiva, o educador não é apenas alguém que transmite informações, mas um mediador que cria pontes entre aquilo que a criança já compreende e aquilo que está pronta para aprender. Ao ajustar sua fala, reformular uma explicação, ampliar um diálogo ou propor novos desafios, a educadora favorece possibilidades de desenvolvimento que respeitam o percurso singular de cada criança.

Quando falamos em bilinguismo na Educação Infantil, também é importante compreender que aprender uma segunda língua vai muito além da memorização de palavras ou estruturas gramaticais. Em contextos bilíngues de imersão, a língua torna-se um meio de interação com o mundo. A criança aprende enquanto brinca, investiga, formula hipóteses, negocia significados, faz descobertas e participa ativamente da vida cotidiana do grupo. O inglês deixa de ser apenas um conteúdo curricular para tornar-se uma linguagem viva, presente nas experiências, nas relações e nos processos de construção de conhecimento.

Essa prática dialoga profundamente com a abordagem que inspira o trabalho pedagógico da MiniMe. Inspirado pelas ideias de Loris Malaguzzi, o projeto educativo de Reggio Emilia reconhece que a criança possui inúmeras formas de pensar, investigar e se expressar. A conhecida metáfora das “cem linguagens da criança” nos convida a compreender que a comunicação não acontece apenas por meio das palavras, mas também através dos gestos, das brincadeiras, do desenho, da música, do movimento e de tantas outras formas de expressão. Nesse contexto, a escuta torna-se uma competência essencial do educador. Escutar, na perspectiva de Reggio Emilia, significa observar atentamente, interpretar hipóteses, acolher diferentes formas de comunicação e construir conhecimento junto com as crianças.

Ser “poliglota no mesmo idioma”, portanto, não se resume à adaptação do vocabulário ou das estruturas linguísticas. Trata-se de desenvolver a sensibilidade para perceber quem é a criança que está diante de nós e encontrar caminhos para tornar a comunicação acessível, desafiadora e significativa. Exige compreender que uma mesma palavra pode ganhar sentidos diferentes conforme a experiência, a idade e o contexto de cada criança. Acima de tudo, requer reconhecer que viver uma experiência educativa em duas línguas é um exercício permanente de observação, escuta e construção de relações.

Na MiniMe, acreditamos que o bilinguismo acontece de forma mais potente quando está inserido nas experiências reais das crianças. O inglês não é tratado como uma disciplina isolada, mas como uma linguagem que permeia brincadeiras, investigações, projetos e descobertas. Nossas educadoras utilizam o idioma para construir diálogos, provocar reflexões, documentar aprendizagens e ampliar as possibilidades de interação das crianças com o mundo. Mais do que ensinar uma língua, elas criam contextos significativos nos quais a comunicação acontece de forma autêntica e intencional.

Talvez seja justamente por isso que as educadoras bilíngues precisem ser verdadeiras poliglotas no mesmo idioma. Porque, antes de ensinar palavras em inglês, elas aprendem diariamente a falar a linguagem da curiosidade, da descoberta, do brincar e da infância. E essa é, sem dúvida, uma das formas mais complexas, sensíveis e potentes de comunicação que existem.

Referências bibliográficas: 

VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George (orgs.). As cem linguagens da criança: a abordagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Porto Alegre: Penso, 2016.