A arte de educar: quando a autonomia substitui a independência

Angélica Marinho – Pedagoga

Muitas vezes, por amor, queremos evitar que nossas crianças se frustrem. Mas é justamente tentando, errando e tentando novamente que elas desenvolvem coragem, responsabilidade e autoestima. Nesse artigo vamos falar sobre como a autonomia transforma e auxilia no desenvolvimento infantil.

“Eu não sei fazer, faz pra mim?”. Quantas vezes nós, educadores e responsáveis, escutamos essa frase quando nossas crianças se deparam com um desafio?

De imediato, nossa vontade é intervir, resolvendo a situação para evitar qualquer tipo de frustração ou desconforto. Porém, é importante que reflitamos sobre o “errar” e ”tentar novamente”, demonstrando persistência no processo de aprendizagem.

Promover a autonomia na primeira infância é essencial para o desenvolvimento integral da criança, abrangendo as habilidades motora, cognitiva, emocional e social. Ao estimularmos que as crianças busquem soluções, estamos fortalecendo competências importantes, como a resiliência e a autoestima, por exemplo.

Mas… já parou para pensar na diferença entre autonomia e independência?

Segundo o Dicionário Michaelis, a independência é definida como “estado, condição ou característica daquele que goza de liberdade completa em relação a alguém ou a algo”. Já a autonomia, diz respeito à capacidade de fazer escolhas conscientes dentro de um contexto social, tendo a mínima noção das consequências. Ou seja, a criança com autonomia pode até precisar de auxílio, mas sabe tomar decisões e pedir ajuda, caso seja necessário, desenvolvendo gradualmente sua capacidade de gerir suas emoções e reações diante de desafios.

Nos registros acima, os alunos demonstram autonomia em momentos da rotina, realizando ações do dia a dia com independência e coordenação motora adequada.

Por que estimular a autonomia da criança ainda nos anos iniciais?

De acordo com a médica e educadora Maria Montessori (1870 – 1952), quanto mais cedo oferecermos estímulos e ambientes em que a criança possa explorar, mais conexões nervosas as crianças fazem e, consequentemente, mais caminhos de aprendizagens são estabelecidos. Com isso, temos crianças mais responsáveis e potentes, e com maior controle sobre suas ações e emoções.

É natural que queiramos poupar nossos pequenos das frustrações. No entanto, ao protegê-los em excesso, acabamos tirando deles a oportunidade de aprender, crescer e construir uma base sólida de equilíbrio emocional e segurança, algo que só se desenvolve no contato com as situações reais do dia a dia. Amar também é permitir que eles sintam, errem, se fortaleçam a cada passo e aprendam a lidar com tudo isso da melhor forma.

Portanto, é essencial permitir que as crianças pratiquem sua autonomia, mesmo que elas errem – e vão errar pois isso faz parte do processo de desenvolvimento – elas estarão sendo expostas a situações ricas em aprendizagem. Tudo isso deve acontecer com nosso suporte atento, nossa presença amorosa e a segurança de saberem que, mesmo diante das dificuldades, estaremos sempre por perto para guiá-las, não para evitar que caiam, mas para ajudá-las a se levantarem quando isso acontecer.

Por que estimular uma atuação autônoma na primeira infância?

De maneira saudável, podemos estimular a autonomia das crianças desde muito pequenas. No ambiente doméstico, por exemplo, crianças entre dois e três anos podem auxiliar na arrumação de seus brinquedos, podem levar roupas sujas até o cesto e até mesmo levar seus pratos até a pia. Já crianças entre quatro e seis anos podem regar as plantas, guardar algumas compras do supermercado, ajudar a organizar a mesa antes e após as refeições.

Já no ambiente escolar, é essencial incentivar a autonomia durante as atividades de rotina como: despir-se e vestir-se para o uso do banho e escovar os dentinhos. Dessa maneira, elas podem atender suas próprias necessidades, tendo no adulto de referência apenas um ponto de apoio e segurança.

São inúmeras as vantagens de incentivo à autonomia na primeira infância! Destacam-se dentre elas, o desenvolvimento cognitivo, quando buscam soluções para desafios sem pedir ajuda aos adultos; a sociabilidade, uma vez que, quando impedimos os pequenos de resolverem situações provenientes de sua esfera de relação, podemos contribuir para o surgimento de comportamentos introspectivos e inseguros, tornando-os amedrontados diante do mundo. Isso sem falar na inteligência emocional, que é fortalecida à medida que aprendem a lidar com frustrações e celebram suas próprias conquistas.

Sugestão de leitura sobre o tema:

Na obra infantil “All by Myself”, de Mercer Mayer, podemos acompanhar uma criaturinha simpática que inspira as crianças a assumirem pequenas responsabilidades no dia a dia, como abotoar os botões da própria blusa e ajudar a irmã mais nova no café da manhã, por exemplo. De forma lúdica e gentil, o livro reforça a importância da autonomia desde cedo, mostrando que os pequenos também são capazes de cuidar de si e colaborar com situações ao seu redor.

Outra leitura interessante é o livro: “Deixa eu fazer sozinho”, de Davinni Macedo. Nessa obra temos como personagem principal Pedrinho, um garotinho muito esperto que gostaria aprender e se arriscar a realizar tarefas em sua rotina, mas é frequentemente impedido pelos pais, até que ele dá um basta nessa situação que o impede de explorar o mundo ao seu redor fazendo um pedido: “Deixa eu tentar sozinho?. Certamente o desejo de Pedrinho nos faz refletir acerca dos limites entre cuidado excessivo e autonomia.

REFERÊNCIAS:

https://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=independ%C3%AAncia
https://amshq.org/about-montessori/press-kit/what-is-montessori/
https://institutoneurosaber.com.br/artigos/a-autonomia-e-importante-para-a-aprendizagem-infantil/
https://quindim.com.br/blog/tarefas-para-criancas/
https://institutoneurosaber.com.br/artigos/a-autonomia-e-importante-para-a-aprendizagem-infantil/
https://www.amazon.com.br/All-Myself-Mercer-Mayer/dp/0307119386
https://www.amazon.com.br/Deixa-fazer-sozinho-hist%C3%B3ria-autonomia-ebook/dp/B09PNVK6WD